Acordei naquela manhã de domingo como sempre acordo, liguei a televisão por hábito e levei o primeiro baque da manhã. Há principio não entendi exatamente o que havia acontecido, vi um grupo de rapazes quebrando uma parede com picaretas, outros tentando reanimar amigos caídos no chão e rostos com expressões de medo e de perplexidade. Minha mãe se sentou ao meu lado, em silêncio, não falamos absolutamente nada durante aquela matéria, eu sabia o que ela estava pensando, na verdade nós duas sabíamos o que ambas estavam pensando, e se fosse comigo?
Lembrei de todas as vezes que ela me pediu para ter cuidado quando eu saía, lembrei das recomendações e do "não chega tarde!", lembrei das horas em que em ela ficava acordada me esperando, lembrei das inúmeras vezes que a encontrei adormecida no sofá vencida pelo cansaço, mas mesmo assim não dormiria totalmente em paz até que eu chegasse. Todo aquele cuidado era por amor.
No decorrer daquele domingo mais noticias ganhavam a mídia e aquilo me incomodava ainda mais. 100, 150, 200, 230, 233 ... não eram números, eram pessoas, eram corpos, aquilo era uma zona de guerra, e só piorava a cada hora. A maioria asfixiados e não queimados como era de se imaginar, um centro desportivo transformado em necrotério, pais, mães, irmãos, namorados e amigos tendo que reconhecer os corpos daqueles que amavam.
No dia 28, toda a imprensa estava concentrada naquela cidade gaúcha, todos tentando entender o que havia acontecido realmente, quem eram os culpados e se realmente haviam culpados, buscando fazer justiça, mobilizar a causa, mudar leis em outras cidades e caçar alvarás rapidamente como se toda essa ação fosse trazer aqueles 233 de volta. Todos motivados, fechando casas noturnas, correndo contra o tempo para "evitar" tragédias, mas convenhamos, não se volta atrás.
Hoje é dia 29, é o dia em que aqueles nomes nas listas ganharam rostos, é o dia em que as primeiras fotos das vitimas foram divulgadas, e me desculpem a fraqueza, não tive coragem de olhar naqueles olhos, cheios de esperança, de vida e de sonhos, me vi em um espelho, não consegui me esquecer do "podia ser eu", e não vou.
Sei que com o tempo toda essa história vai aos poucos sendo esquecida, sei que a dor daquelas famílias nunca vai se extinguir, sei que todos temos que tocar a vida, que seguir em frente. Li Carpinejar e concordo que todos morremos um pouco ali, naquela boate, mas vamos superar, o tempo apaga tudo não é mesmo? e antes que ele apague, esse é o meu jeito de dizer aqueles 233 que eu me importo, que me emocionei quando vi tamanha agonia em tantos inocentes. Esse é o meu jeito de dizer aquelas famílias que eles não estão sozinhos, esse é o meu jeito de dizer que não vou me esquecer das Andressas, dos Andrés, dos Felipes, das Luizas, das Marianas, dos Miguéis, dos Murilos ...
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